Minha primeira experiência com Cummings foi no Reading Club, lendo “somewhere I have never travelled” e adorei. Os poemas dele agora seguem na minha vida. Sei que existem algumas traduções feitas por Augusto de Campos, mas prefiro traduzir ao meu jeito. Traduzi dois destes poemas que gosto. Tente entender:
“now two old ladies sit peacefully knitting”
e duas velhas senhoras sentadas tricotam,
e seus nomes são quase e sempre“não entendo o que a vida possa ter visto nele” contando
pontos sempre diz;e sua irmã( esconden-
do um bocejo)contrapõe “a eu não sei;morte é até atraente”
-”atraente!mas como podes dizer tal coisa?quando penso
em meu pobre querido marido”-”mas não seja absurda:o que eu disse foi
até atraente’,querida;e sabes muito bem que
nunca foi muito mais que atraente, nunca eraestupefante”(um estampido. Ambas pulam)”céus!” sempre exclama “que
foi aquilo?”-”aí vem tua filha”
acalma quase;ao quea jovem esposa de morte entra;lamuriante,e gemendo
“terrível criança!”-”que foi”(quase e sempre
juntas questionam)”agora?”-”minha boneca:minha linda boneca;a exata
primeira boneca que me destes, mãe(quando eu podia quase
andar)com os olhos que abriam e fechavam(tu se lembras:
não, tia;a chamávamos amor)e a guardei
todos esses anos,e hoje fui a um armário
procurando algo;e abri uma caixa, e lá ela
estava:e quando ele a viu, ele implorou-me para deixá-lo
segurá-la;apenas uma vez:e eu disse “humanidade, tenha cuidado;
ela é terrivelmente frágil:não a quebre,ou mamãe ficará brava”e então(exceto pelos
cliques das agulhas)se fez silêncio
“somewhere i have never travelled”
em algum lugar ao qual nunca viajei, felizmente além
de qualquer experiência,teus olhos têm tal silêncio:
em teu mais frágil gesto estão coisas que me encerram,
ou que eu não posso tocar por estarem tão proximasteu mais rápido olhar vai facilmente me descerrar
mesmo tendo fechado-me a dedos,
você abre-me sempre pétala a pétala como a Primavera abre
(tocando sabiamente,misteriosamente) sua primeira rosaou se teu desejo for fechar-me, eu e
minha vida vamos nos fechar belamente, repentinamente,
como quando o coração de tal flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em todo lugar;nada que percebemos neste mundo se iguala
ao poder de tua intensa fragilidade:cuja textura
me compele com as cores de seus continentes
reconstruindo a morte e sempre a cada respiração(eu não sei o que em você que fecha
e abre; só algo em mim entende
que a voz de teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém,nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
E é assim…